Gestão Inteligente de Cidades

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No Congresso de Administração, Sociedade e Inovação, realizado em 2014 na Universidade Federal Fluminense, do Rio de Janeiro, pesquisadores da UECE apresentaram uma discussão teórica intitulada “Gestão inteligente de cidades: a complexidade e a inovação na gestão dos aglomerados urbanos” (CÂMARA; CARVALHO; PINTO, 2014).

O elemento central dessa discussão era a apresentação de um modelo de gestão de cidades que se contrapunha ao modelo da administração clássica aplicada pela gestão das prefeituras brasileiras, baseada nos cinco princípios do POCCC estabelecidos por Fayol (planejar, organizar, coordenar, comandar e controlar).

Tendo como fundamentação a Teoria da Complexidade em Cidades, o estudo defendia um novo modelo administrativo, apresentando as macro funções do modelo EEICO, traduzidas como Entender, Estimular, Interagir, Compartilhar e Observar, propriedades mais adequadas aos ambientes de complexidade, em que predominam os fenômenos de auto-organização e emergência.

As Macro funções do modelo EEICO estão assim configuradas:

1.ENTENDER

Entender significa ter compreensão e conhecimento sobre a cidade, dominando os processos de evolução e mapeando as inter-relações possíveis entre os atores que promovem as mudanças no ambiente, observando, porém, que a complexidade dos sistemas urbanos relembra que variáveis que em princípio não se mostrem importantes exercem influência também na evolução do sistema como um todo.

Essa compreensão difere da visão dos planejadores, detentores do conhecimento explícito, que enxergam a desordem em comparação com os seus modelos mentais da ordem mecanicista, e procuram exercer a sua função de acabar com aquele estado, modificando-o e aplicando padrões de outros exemplos de cidades, mas não entendendo as peculiaridades próprias do ambiente em que estão trabalhando.

O entendimento é que a cidade é formada por seres humanos; e se nelas existem dificuldades abundantes, é exatamente por existir uma grande quantidade de pessoas. Porém, é importante entender que ali também existe um grande potencial para o combate das próprias dificuldades, em vista do vasto conhecimento sobre os problemas e das possíveis soluções.

O que defende o modelo de gestão inteligente de cidades é que, em vez de o órgão de administração pública centrar os esforços em “Planejar”, deve buscar capacitações para “Entender” a cidade, o que requer um movimento permanente nesse sentido, tendo sempre à disposição informações privilegiadas que venham a subsidiar decisões sobre projetos de desenvolvimento da aglomeração urbana.

2.ESTIMULAR

O POCCC apresenta “Organizar” como um princípio necessário à definição e controle das estruturas organizacionais, o que é possível em uma organização fechada.

Na cidade, esse princípio é ineficaz, porquanto já existe uma auto-organização prévia dos seus habitantes, a qual não deve ser contrariada pela autoridade municipal, pois a única forma de realizar essa definição é adotando uma postura autoritária.

Dessa forma, deve-se “Estimular” os componentes da comunidade, no sentido de encontrarem, em articulação com o órgão de administração, os caminhos para a melhoria de vida da cidade, respeitando-se o sistema complexo de trajetória coevolutiva (MCKELVEY, 1997).

Assim, na medida em que se disponha de maior entendimento sobre a cidade, poderão ser utilizadas metodologias de aproximação do órgão municipal com esses diversos segmentos auto-organizados, com o fito de estimulá-los a realizar um trabalho de cocriação e cogestão, incluindo esses atores nas decisões sobre o destino futuro da cidade.

Nesse tópico, pode-se imaginar a formação de grupos de cogestão que poderiam trabalhar dentro do modelo de redes e que pudessem estar mais em sintonia com a comunidade, pois sabe-se que o trabalho é muito mais estimulante quando feito pelos iguais, isto é, cidadãos estimulando cidadãos, do que mesmo quando comparado com os esforços feitos pela estrutura oficial nessa interação.

3.INTERAGIR

As interações locais da cidade definem a sua personalidade, que é coerente com os movimentos de sua população, a qual se auto-organiza a partir de uma miríade de decisões individuais que constroem a sua ordem global, que é complexa e surpreendente (JOHNSON, 2003).

É dessas interações, determinadas por meio da colaboração, que emerge uma lógica que irá predominar nas situações evolutivas, as quais se apresentam em trajetórias de longo prazo e definem a sobrevivência do organismo urbano, embora os indivíduos da população tenham um curto prazo de vida (AXEROLD, 2004).

Ao ressaltar a importância das calçadas para as cidades, Jacobs (2011) não estava interessada em discutir a sua aparência ou a sua manutenção física. Destacava ali os dutos que conduzem os fluxos de informação entre os seus habitantes, fruto de suas interações primárias, pois mesmo que as pessoas sejam estranhas umas para as outras, ficam as informações simbólicas repassadas de alguma forma pela passagem através das calçadas, o que define as junções da vida comum dos habitantes na cidade.

Está na relação e na formação dessas redes sociais a emergência de movimentos de cidadania de qualquer natureza, sejam aqueles que tragam resultados benéficos, sejam aqueles que resultem em malefícios para o bem-estar nas cidades.

Portanto, é função da administração pública local manter-se em permanente interação com esses movimentos, como forma de transformar o seu modelo reativo de tomar decisões em um modelo proativo, identificando em tempo real essas interações que irão influenciar de forma decisiva a trajetória da cidade.

4.COMPARTILHAR

De acordo com Câmara, Carvalho e Pinto (2014, p. 11), “compartilhar significa estabelecer uma lógica de uso de recursos não excludentes, principalmente as informações e o conhecimento, promovendo as trajetórias coevolutivas entre os diferentes atores”.

No modelo EEICO, todas as funções são fontes de conhecimento e informações sobre a cidade e o seu ambiente complexo. Esse repertório de dados sobre a cidade precisa ser compartilhado para os seus habitantes, possibilitando qualificar as suas interações individuais e manter uma consciência sobre a cidade, permitindo-lhe cooperar de forma mais efetiva com as soluções ideais para o seu desenvolvimento, seja no seu microambiente, seja no macroambiente comunitário.

É necessário o esforço da administração pública para realizar esse compartilhamento de conhecimentos com os cidadãos, criando um círculo virtuoso de alimentação e retroalimentação dos sistemas elaborados para dar vazão aos recursos informacionais.

O compartilhamento da cidade com os seus principais usuários e interessados pode ser realizado também por meio de transferência de responsabilidades para grupos de cidadãos auto-organizados, estimulando a que esses grupos exerçam a cogestão da cidade e se sintam encorajados a tomar-lhe o destino em suas próprias mãos.

De outro lado, o compartilhamento de conhecimentos e informações relevantes pode incentivar a troca de experiências em projetos bem-sucedidos implementados por micro-organismos de cidadãos, os quais podem ser disseminados por outros locais ou por outros organismos da cidade.

A cidade compartilhada extrapola ainda para a utilização de bens e serviços que possam ser utilizados coletivamente, ao invés de individualmente, o que, além de aumentar os custos para o usuário, prejudicaria de forma geral o sistema urbano, como fica muito claro na utilização de veículos de passeio, provocando problemas de mobilização urbana, além de outros efeitos colaterais, como poluição sonora e do ar, afora as implicações de ordem social e de saúde.

5.OBSERVAR

O sentido da função “Observar” está no fulcro da compreensão dos sistemas complexos, pois ele parte do pressuposto de que “há ordem no caos”.

Essa constatação define logo a natureza de uma ordem caótica, que não pode ser controlada, mas deve ser observada permanentemente, já que os sistemas que a formam estão também em contínuo movimento.

A observação debruça-se sobre a ordem inata daquela comunidade, tentando discernir sobre o funcionamento das partes e do todo que as compõe, partindo do entendimento de que muitas vezes essas dinâmicas não passam de diálogos entre surdos, não se explicitando facilmente, merecendo uma atenção aprofundada para decifrá-los, do que decorre a necessidade de utilização de métodos compatíveis com esse tipo de tarefa.

Pode-se pensar que a sua resolução funcional deve ser efetivada pela instalação de um observatório nos moldes como são idealizados diversos modelos de observatório urbano, que funcionam como receptáculos de informações e formulação de indicadores sobre a cidade.

Mesmo considerando a importância desse tipo de atividade, o que se defende aqui é que “observar” vai muito além dessas tarefas. Na verdade, essa observação da ordem essencial e funcional da cidade vai requerer uma ação mais profunda de conhecimento da sociedade, rebuscando a intimidade de seus grupos sociais e dos seus bairros, conhecendo o seu funcionamento e sabendo aquilo que tem importância para essas pessoas e locais.

Como se pode depreender da formulação realizada para as macro funções do Modelo EEICO, verifica-se que elas não estão alinhados por ordem de precedência, mas  encontram-se absolutamente intricadas, vale dizer que a adoção de cada um, per si, reflexiona e colabora com as demais, como indicado na Figura 1.

Figura 1 – Inter-relações das macro funções do Modelo EEICO

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Fonte: Elaborada pelo autor.

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REFERÊNCIAS:

AXELROD, R. A Evolução da Cooperação. 5 ed. São Paulo: Leopardo, 2004.

CÂMARA, S. F.; CARVALHO, H. J. B.; PINTO, F. R. Gestão Inteligente de Cidades: a complexidade e a inovação na gestão dos aglomerados urbanos. In: Congresso Nacional de Sociedade e Inovação (CASI). Anais… Volta Redonda (RJ): 2014.

JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. 3ª Ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

MCKELVEY, B. Quasi-natural organization science. Organization Science.V. 8, pp. 352-380, 1997.


Autoria: Hermano José Batista de Carvalho. Esse texto é parte de um Ensaio desenvolvido no estágio de pós doutoramento realizado pelo autor no Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra (Portugal), ente os anos de 2016-2017.

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